Hemofilia: Aspectos Psicossociais
Rosa Rita »
Artigos
24 Mar 2009 | 1:53
A hemofilia é um distúrbio hereditário que se origina de uma deficiência hematológica congênita caracterizada pela diminuição da atividade coagulante do fator VIII, Hemofilia A ou do fator IX, Hemofilia B. Está presente em todos os grupos étnicos e em todas as regiões geográficas do mundo.
A hemofilia começa com uma condição hereditária envolvendo todos os membros da famÃlia, como mãe, pai, irmãos, hemofÃlicos ou não. Além das crises hemorrágicas, temos a ansiedade dos pais, a exaustão da famÃlia e a alteração dos planos desta para o futuro. O relacionamento familiar do hemofÃlico é permeado por fortes sentimentos e esse sentimento é renovado a cada novo episódio hemorrágico.
O hemofÃlico aprende desde cedo a conviver com a dor dos episódios hemorrágicos, e com as condutas empregadas no tratamento destes acometimentos, que incluem punções repetidas para a reposição do fator de coagulação. Por esta medicação ser derivada do plasma de doadores de sangue, o hemofÃlico necessita da boa vontade de outro ser humano para que sua dor fÃsica tenha fim, ainda que temporariamente e pelo o risco de adquirir outras enfermidades transmissÃveis pelo sangue, dependendo da procedência e qualidade deste sangue. Tudo isto acarreta uma alteração em sua auto-imagem, pois, ele percebe que não é um ser humano dotado de completa autonomia (Barros, 1996).
Segundo Barros (1995), O homem, por natureza é um ser teológico (capacidade de projetar no futuro suas ambições) e esta é a mola propulsora de toda a sua vida. Ele necessita desta fantasia do mesmo modo que precisa do alimento e da água para sobreviver. Um homem sem perspectiva de futuro é um ser que não tem função existencial. O hemofÃlico tende muitas vezes a se ver como um indivÃduo inseguro, que vive em constante suspenso principalmente, por causa dos problemas adquiridos pela a hemofilia.
Num paÃs do Terceiro Mundo, onde a miséria é grande e a saúde não é levada a sério pelo Governo, sem dúvida, são os sofrimentos de ordem material que com mais clareza se sobressaem. Os hemofÃlicos brasileiros encaram, em primeiro lugar, a dificuldade básica de não contar sequer com medicação em qualidade e em quantidade suficiente. Este fundamental problema expõe o hemofÃlico a sérias dificuldades sociais, em busca de novas oportunidades que lhe assegure uma vida harmoniosa e feliz.
O hemofÃlico, como todo doente crônico, deve conscientizar-se de que é uma pessoa portadora de uma deficiência, porém com capacidade produtiva, carências, emoções e sentimentos como qualquer pessoa saudável.
O hemofÃlico, como qualquer outra pessoa, deve viver inserido na sociedade, exercendo uma profissão que permita a sua realização pessoal e a sua independência econômica, mas que esteja de acordo com a sua limitação.
A falta de preparação profissional, na maioria das vezes, não permite ao hemofÃlico a escolha criteriosa de uma profissão adequada, pois há determinadas ocupações que não são aconselhadas. Se o trabalho a realizar exige esforços fÃsicos prolongados, se ocasiona sobrecarga constante em determinados grupos musculares ou em articulações (estar em pé todo o dia, ou ter que fazer vários quilômetros diariamente para o desempenho de determinada função) serão certamente mais freqüentes as hemorragias e mais difÃcil será evitar, durante toda a vida, certas incapacidades.
Às vezes, o hemofÃlico é obrigado a seguir certa profissão como forma de sobreviver, porque não possui preparação para outros trabalhos. Para isso é necessário que desde criança lhe sejam dadas oportunidades para adquirir autoconfiança para aprender a saber o que pode fazer e o que lhe ocasiona perigos, e que lhe seja oferecida também possibilidade de obter conhecimentos que lhe permitam escolher uma profissão adaptada à sua deficiência congênita, na qual possa sentir-se realizado, compensando desta forma as situações provocadas pela hemofilia.
O perÃodo de escolarização de um hemofÃlico merece uma atenção especial. A ida para a escola ocasiona, em regra, preocupações aos pais, que receiam os perigos a que o filho estará sujeito no contato com outras crianças, cujas brincadeiras o expõem a acidentes hemorrágicos. Nesta situação, como em muitas outras, é necessário encontrar o equilÃbrio que nunca existe com uma superproteção. O hemofÃlico tem que aprender através de suas próprias experiências como se deve proteger e como deve evitar as hemorragias.
Um problema que surge no perÃodo escolar são as ausências freqüentes à s aulas, mais ou menos prolongadas, em conseqüência de acidentes hemorrágicos. Convém, portanto, para uma integração escolar perfeita, que sejam estabelecidos contatos com os professores a fim de que os mesmos, esclarecidos sobre a hemofilia, tomem as atitudes mais adequadas ao aluno hemofÃlico. O aproveitamento escolar e o desenvolvimento intelectual dependem grandemente da colaboração entre hemofÃlico, familiares e professores.
A prática de autocuidado, tratamento oportuno e eficaz, com abordagem multidisciplinar, relação equilibrada em casa, na escola, no trabalho são fatores indispensáveis para o desenvolvimento psicossocial do hemofÃlico.
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