Uso do telefone móvel celular: Existem riscos biológicos?

Solidônio »

Historicamente, os sistemas de telefonia móvel foram desenvolvidos desde a década de 70. Entretanto, somente no início da década de 80, os telefones móveis passaram a ser amplamente utilizados na América do Norte (RSC, 1999). Atualmente, os telefones móveis são usados por cerca de 1,6 bilhões de pessoas em todo mundo (AHLBOM, 2004). Nos Estados Unidos, o número de usuários da telefonia celular foi estimado em 92 milhões no ano 2000, crescendo em torno de um milhão de novos usuários a cada mês (FRUMKIN, 2001).

O uso generalizado da telefonia celular tem levantado dúvidas sobre o seu potencial deletério (AHLBOM, 2004). Isto porque os tecidos absorvem parte da radiação eletromagnética emitida pelos celulares (RSC, 1999), sugerindo uma possível correlação entre a exposição às ondas de radiofreqüência e o aparecimento de tumores intracranianos (FRUMKIN, 2001).

O poder de lesão da radiação eletromagnética depende diretamente de sua energia. Fótons suficientemente energéticos podem ionizar o meio material retirando elétrons orbitais. O processo de ionização produz lesões nas biomoléculas porque rompe ligações químicas. Ademais, a ionização também provoca a radiólise da água, contribuindo para a formação de radicais livres que potencializam o aparecimento de lesões (GARCIA, 1998)

Funcionamento da Telefonia Móvel Celular

Os Telefones Celulares (TCs) emitem ondas de radiofreqüência entre 800 e 2000MHz aproximadamente, as quais estão localizadas na faixa das microondas dentro do espectro eletromagnético (JOHANSEN, 2001; FDA, 2003). Quando o telefone celular (TC) está em modo de espera (stand-by), ainda emite sinais de radiofreqüência, porém de baixíssimo nível (FDA, 2003). Os fótons da radiofreqüência não têm energia suficiente para ejetar elétrons do meio material e dos tecidos vivos. Por esta razão, a radiação emitida pelos celulares é do tipo não ionizante (FRUMKIN, 2001).

Os primeiros sistemas de telefonia móvel eram analógicos e operavam numa faixa de freqüência de 450 a 900MHz. Estes sistemas vêm sendo substituídos pelos aparelhos digitais, os quais emitem ondas moduladas numa freqüência mais elevada (1800 a 1900 MHz), porém com menor potência de saída em relação aos modelos analógicos (AHLBOM, 2004). A potência de saída de um TC típico está em torno de 0,25W, o que produz uma absorção de energia específica de 1,5W/Kg aproximadamente (VAN LEEUWEN, 1999).

A tecnologia celular opera através um sistema de zonas geograficamente delimitadas. Estas zonas são chamadas de células. Cada célula tem sua própria estação base, que tanto recebe como emite ondas de rádio. Quando uma chamada é feita de um TC, um sinal eletromagnético é enviado da antena do TC até a estação de transmissão. A estação responde a este sinal ajustando um canal de radiofreqüência disponível, por onde sinais modulados de rádio serão simultaneamente recebidos e transmitidos. (FRUMKIN, 2001).

A operadora ajusta o nível de potência de cada TC a ela conectado, sendo a potência regulada para o nível mais baixo capaz de manter a qualidade conexão. Este ajuste de potência é adaptável e permanente, de tal modo que a potência de um TC pode variar até mesmo dentro de uma mesma chamada (LÕNN, 2003). A variação de potência depende de vários fatores, notadamente a distância entre o TC e a estação transmissora, obstáculos físicos interpostos entre o TC e a estação, e mudanças de estação transmissora que ocorrem quando o TC está em movimento (LÕNN, 2003)

Absorção Específica das Ondas de Radiofreqüência (SAR)

A antena de um TC é a fonte primária dos sinais de radiofreqüência. Devido à grande proximidade entre o usuário e a antena, a exposição aos sinais de radiofreqüência é muito maior na telefonia celular do que em outros sistemas de telefonia móvel (FRUMKIN, 2001). A absorção das ondas de radiofreqüência é maior no lado da cabeça em que o TC é utilizado, alcançando níveis máximos na região da antena (DIMBYLOW, 1999).

Quando o corpo é exposto à radiofreqüência, ele absorve uma quantidade da energia eletromagnética. Esta absorção é mensurada através de uma grandeza biofísica designada como “Nível Específico de Absorção (SAR)”, a qual é geralmente expressa em Watts/Kilograma (Tabela I). Nos Estados Unidos, o limite máximo permitido de SAR para telefonia celular é de 1,6 W/Kg (FDA, 2003). O nível SAR depende de vários fatores, incluindo o tipo de antena, a localização da antena e o modo como o TC é utilizado. Contudo, o fator mais importante para absorção da radiofreqüência é a potência de saída do TC (LÕNN, 2003)

Outros fatores importantes que controlam o nível de absorção da radiofreqüência incluem:

A Distância Entre a Antena e o Usuário: a absorção da radiofreqüência diminui dramaticamente com o aumento da distância. Infelizmente, a antena de um TC está integrada ao corpo do aparelho. Nos chamados “car telephones”, utiliza-se uma antena remota situada fora do carro, o que diminui bastante os níveis SAR de absorção (FRUMKIN, 2001; LÕNN, 2003; FDA, 2003).

Presença de Obstáculos Físicos: barreiras físicas (edifícios, vegetação, relevo, etc.) dificultam a conexão entre o TC e a estação transmissora, forçando o TC a operar com maior potência de saída para manter a conexão. O simples fato de o TC ser utilizado dentro ou fora de casa produz variações de potência e absorção SAR (FRUMKIN, 2001, LÕNN, 2003).

Mudanças de Estação de Transmissão: quando o usuário está em movimento, saindo dos limites de uma célula e adentrando em outra, a conexão é repassada de uma estação de transmissão para outra (handover). Esta mudança também pode resultar do programa de controle da própria operadora, que modifica a estação transmissora para melhorar o tráfico de comunicações. A ocorrência de “handovers” aumenta a absorção da radiofreqüência, pois a potência do TC é geralmente ajustada para o nível mais alto durante um “handover” (WIART, 2000; AHLBOM, 2004).

O Número de Células Presentes na Região: localidades providas de poucas estações de transmissão forçam o TC a operar com maior potência. Como as estações estão geograficamente esparsas, a distância entre o TC e a estação de transmissão aumenta. Com efeito, o TC aumenta a potência de saída para manter a conexão (FRUMKIN, 2001; LÕNN, 2003).

O Tráfico de Conexões: nas áreas urbanas, onde o tráfico de conexões é maior, também cresce a freqüência de “handovers”. Isto compensaria parte do efeito protetor relacionado ao maior número de estações transmissoras das áreas urbanas (LÕNN, 2003).

O Tipo de Telefone Celular: os modelos analógicos mais antigos operam com uma potência de saída maior que os modelos novos digitais (AHLBOM, 2004).

Tempo de Conexão: obviamente, quanto maior for o tempo de conexão, maior será a exposição aos sinais de radiofreqüência (FDA, 2003).

Estudos Favoráveis ao Dano Biológico

As pesquisas sobre os efeitos da radiofreqüência têm produzido resultados bastante controvertidos, e muitos estudos têm revelado limitações na metodologia empregada. Ainda assim, alguns trabalhos pontuais têm sugerido que a radiofreqüência de baixa energia pode acelerar o desenvolvimento de tumores (FDA, 2003).

Em uma revisão patrocinada pela Royal Society of Canada (RSC), é descrita uma entidade nosológica chamada de “Síndrome da Radiofreqüência” (Radiofrequency Radiation Sickness Syndrome). Esta síndrome é definida como uma doença humana sistêmica, causada pela exposição crônica e recorrente à radiofreqüência de baixa intensidade. As manifestações clínicas são variáveis, comumente subjetivas, e geralmente desaparecem quando cessa a exposição. Estas manifestações seriam: o aparecimento de tumores, irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração, perda do apetite, depressão, suicídio, insônia, perda de memória, desordens hematológicas, reprodutivas e cardiovasculares. A “Síndrome da Radiofreqüência” é descrita por alguns autores soviéticos, entretanto não é reconhecida nos Estados Unidos, sendo ainda uma entidade clínica bastante controvertida (RSC, 1999).

VAN LEEUWEN (1999) acentua que a radiofreqüência dos TCs (0,25W) produz efeitos de natureza térmica, sendo suficiente para provocar o aquecimento da temperatura cerebral. O aumento máximo é da ordem de 0,110C.

Segundo CURCIO (2005), a exposição a um TC típico (0,25W; 902MHz) pode alterar o padrão normal de ondas do eletro-encefalograma (EEG). Alterações espectrais foram observadas em algumas áreas da banda alfa, principalmente quando o EEG era registrado no momento da utilização do TC. Dados de KOIVISTO (2000) sugerem que o TC deprime a capacidade cognitiva do usuário para realização de cálculos aritméticos.

Vários sintomas estão sabidamente associados ao uso dos TCs. As sensações mais freqüentes são de queimação nas regiões auriculares e dor surda nos lobos temporal e occipital. Geralmente, os sintomas são reversíveis, e começam nos primeiros minutos após o início da chamada (HOCKING, 1998). Segundo SANDSTRÕM (2001), há um risco maior de cefaléia, fadiga e aquecimento da região auricular em usuários da telefonia celular analógica.

Dois trabalhos inquietantes relataram quebras no DNA de roedores produzidas pela radiofreqüência de baixa intensidade. O primeiro descreve um aumento significante dose-dependente de quebras simples de cadeia quatro horas após a exposição (LAI, 1995). Já o segundo relata quebras simples e duplas produzidas por ondas contínuas e intermitentes (500 pulsos/s) de baixa intensidade (2450MHz). O autor sugere que as lesões possam resultar da energia da radiofreqüência agindo diretamente sobre o DNA, ou ainda de um acometimento dos mecanismos normais de reparo celular (LAI, 1996).

REPACHOLI (1997) descreve um excesso significante de linfomas em ratos transgênicos expostos cronicamente a ondas intermitentes de 900MHz. Contudo, o FDA americano (Food and Drug Administration) acentua que a utilização de animais transgênicos pode fornecer resultados duvidosos, uma vez que estes animais já são predispostos a desenvolver tumores, mesmo na ausência dos sinais de radiofreqüência (FDA, 2003).

STANG (2001) sugere uma possível relação causal entre a exposição ocupacional à radiofreqüência e o aparecimento de melanoma uveal. Foram entrevistados 118 voluntários portadores de melanoma e 475 voluntários normais para fins de controle. Foi observado um risco significante de melanoma uveal nas exposições aos TCs, particularmente no grupo designado como “exposição provável ou evidente”. Apesar dos resultados significantes, STANG (2001) acentua que os resultados encontrados não são definitivos devido às limitações metodológicas do estudo.

Evidências Epidemiológicas

Estudos epidemiológicos bem planejados revelam que não há uma associação consistente entre o uso do celular e o risco aumentado de tumores intracranianos (FRUMKIN, 2001).

JOHANSEN (2001) realizou um grande estudo retrospectivo sobre o uso de celulares e a incidência de vários tipos de tumores. Cerca de 420 mil usuários dinamarqueses foram investigados desde 1982 até 1995. Não foi demonstrada qualquer associação significante entre o uso do TC e o risco de leucemia, tumores cerebrais, tumores nas glândulas parótidas e no sistema nervoso central. A incidência de tumores não demonstrou qualquer associação significante com o tempo de utilização do celular, idade do usuário, data da primeira subscrição na operadora ou tipo de celular (analógico ou digital). Nenhuma associação significante foi demonstrada entre o uso do TC, a localização do tumor ou classificação específica do tumor.

Resultados semelhantes são apresentados por INSKIP (2001) em um estudo controlado. Foi investigado um total 782 pacientes americanos entre 1994 e 1998. Os resultados mostraram que o uso cumulativo do TC não aumentou o risco geral de tumores intracranianos, tampouco aumentou o risco específico de determinados tumores (glioma, meningioma e neuroma acústico). O risco não foi aumentado pelo tempo de utilização (³60minutos/dia), ou pelo uso crônico e regular (³5 anos). Nenhuma relação significante foi demonstrada entre a lateralidade do tumor e o lado em que o TC é utilizado. Os dados refutam a hipótese de que o uso a curto prazo aumente o risco de tumores intracranianos.

LÕNN (2005) investigou todos os casos de glioma e meningioma diagnosticados em regiões selecionadas da Suécia, particularmente entre os anos 2000 e 2002. Controles randomizados foram estratificados de acordo com a idade, gênero e área residencial. Os testes de regressão logística revelaram que o risco de glioma e meningioma não foi aumentado significativamente pelo TC. Do mesmo modo, o risco não foi aumentado pelo uso crônico (>10 anos), tampouco a lateralidade do tumor em relação ao lado em que o TC é utilizado.

FRUMKIN (2001) revisou três grandes estudos controlados sobre o uso dos TCs, todos envolvendo portadores de tumores cerebrais em casuísticas americanas e suecas. Segundo o mesmo autor, não há evidências epidemiológicas suficientes que comprovem uma associação consistente entre o uso dos celulares e o aparecimento de tumores cerebrais. Outros resultados desta revisão incluem: nenhum tipo específico de tumor cerebral está associado significativamente ao uso de celulares; não há relação consistente entre a localização do tumor (incluindo a lateralidade) e o uso do TC; nenhum estudo epidemiológico mostrou uma relação dose-resposta entre o uso do TC e o risco de tumores cerebrais.

Conclusões e Recomendações

A radiofreqüência emitida pelos celulares permanece um tema bastante controvertido na literatura. Enquanto alguns experimentos pontuais mostram um risco biológico consistente, a maioria dos estudos epidemiológicos afasta um provável efeito carcinogênico da telefonia celular Os resultados favoráveis ao risco são geralmente questionados devido às limitações metodológicas, ou pelo fato de utilizarem animais experimentais e modelos transgênicos (FDA, 2003). A despeito das divergências, permanece o fato de que os dados atualmente disponíveis são insuficientes para avaliar os efeitos a longo-prazo da exposição aos TCs (INSKIP, 2001).

Em uma revisão intitulada “Cell Phone Facts”, o FDA (2003) americano transcreve a seguinte conclusão sobre o risco associado aos celulares: “Se estes aparelhos oferecem algum risco, e que atualmente não é conhecido, este risco é provavelmente muito pequeno”. Considerando os riscos indefinidos da telefonia celular, algumas medidas de radioproteção podem ser adotadas, minimizando bastante os níveis SAR de absorção da radiofreqüência. Estas medidas seriam:

Reduzir o Tempo de Conversação: o tempo de exposição à fonte radioativa deve ser o menor possível (OKUNO, 1986). Esta medida de radioproteção também é válida para as radiações não ionizantes. Portanto, quanto menor for o tempo de conexão, menor será a exposição aos sinais da radiofreqüência.

Aumentar a Distância entre o Usuário e o TC: a exposição eletromagnética é diretamente proporcional ao tempo e inversamente proporcional ao quadrado da distância - EµT/d2 (OKUNO, 1986). Como os celulares não utilizam antenas remotas, o próprio aparelho pode ser afastado do usuário. Neste sentido, viva-voz, microfones e fones remotos de ouvido podem ser úteis, principalmente para as longas conversações.

Evitar Utilizar o Celular no Interior de Automóveis: além de aumentar o risco de acidentes automobilísticos (BEDFORD, 2005), o uso do celular dentro de automóveis aumenta a potência do TC e a probabilidade de “handovers”.

Evitar Utilizar o TC em Áreas Rurais ou Longínquas: devido à maior distância entre o TC e a estação, a potência de saída e o nível SAR são maiores nas áreas rurais pouco providas de estações (LÕNN, 2003).

 

Solidonio Arruda Sobreira

Farmacêutico Bioquímico

Docente da FACENE/FAMENE

Artigo retirado da Revista Ciências da Saúde Nova Esperança

Vol.5, nº 1